O Brasil bateu um recorde alarmante de afastamentos do trabalho por ansiedade e depressão em 2024, com quase meio milhão de licenças médicas concedidas no ano passado — o maior número dos últimos 10 anos. Os dados oficiais mostram 472.328 afastamentos por transtornos mentais, um salto de 68% em relação a 2023, segundo levantamento com informações do Ministério da Previdência Social.

Mas além dos fatores tradicionais que explicam esse crescimento — como as cicatrizes da pandemia, pressão econômica e condições de trabalho — há um elemento muito subestimado e profundamente conectado ao nosso dia a dia: o avanço tecnológico e a onipresença do celular.
Sim: esse aparelho bilionário que vivemos grudados trouxe facilidades épicas, mas também armadilhas psicológicas silenciosas.
A tecnologia como espelho e como espinho
Não é exagero — estudos recentes apontam repetidamente que o uso intensivo de smartphones e mídias digitais está associado ao aumento de ansiedade, depressão e stress, especialmente entre jovens e adultos que dependem desses dispositivos para trabalho, estudo e socialização.ResearchGate+1
O celular, por um lado, nos conecta a oportunidades, informação e redes sociais. Por outro, cria uma tensão constante: sempre estabelecendo comparação, vigilância e hiperconectividade. Estar “sempre ligado” muitas vezes significa nunca descansar de verdade, e isso desgasta a mente.
Psiquiatras e psicólogos já discutem que esse fenômeno — uso compulsivo do smartphone — pode ser comparado a uma espécie de “pressão digital invisível”:
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notificações que não param;
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comparação constante com a vida alheia;
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medo de perder algo importante (a famosa FOMO);
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sensação de nunca conseguir deixar o trabalho ou as expectativas offline.
Essa espécie de “eco mental permanente” é parte crucial do quebra-cabeça quando olhamos os números de ansiedade e depressão crescendo dramaticamente no Brasil — tão dramaticamente que se transformou em causa direta de afastamentos no emprego.

Dados não mentem — e o celular não é só ferramenta
Os números mostram que transtornos mentais, particularmente ansiedade e depressão, estão entre as principais razões desses afastamentos recentes.
Mas o que pouca gente ainda discute com seriedade é que a forma como consumimos tecnologia molda nossa neuroquímica emocional:
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acúmulo de estímulos constantes;
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dopamina de curtidas, likes e aprovações efêmeras;
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perda de limites entre trabalho e vida pessoal;
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distrações que fragmentam atenção e impedem foco profundo.
Especialistas já alertavam que o uso problemático do smartphone está associado a sintomas mais elevados de ansiedade e depressão — especialmente quando o aparelho se torna substituto da interação humana real e do descanso mental.
O que antes era apenas “consciência de uso” virou um fator relevante na saúde mental da população que já estava sobrecarregada por desafios econômicos, pressões do mercado de trabalho e expectativas de performance contínua.
O celular como aliado e antagonista
É importante dizer: a tecnologia não é inerentemente “vilã”.
A inovação trouxe educação, comunicação global e novas formas de renda.
Mas também instalou uma armadilha: esperamos estar 24/7 disponíveis, produtivos e conectados — e isso custa psicologicamente.
Quando essa sobrecarga se soma a outros estressores, ela deixa de ser um simples incômodo e passa a ser parte de um ciclo que, em muitos casos, culmina em diagnóstico clínico de ansiedade ou depressão — e, em casos extremos, afastamento formal do trabalho.

O Brasil no espelho da saúde mental
O recorde de afastamentos em 2024 é mais que um número: é um sinal de alerta para empresas, governos e cada indivíduo que usa tecnologia como centro da sua rotina.
Se políticas e ambientes de trabalho precisam se adaptar para cuidar melhor da saúde mental, nós também precisamos adaptar nossa relação com as ferramentas digitais que dominam nossas vidas.
Porque a crise em saúde mental não está acima de nós.
Ela está dentro de cada notificação, cada hábito de checar o celular e cada noite interrompida por um alerta.
E enquanto essa conversa não avançar de verdade — entre sociedade, tecnologia e mente humana — os números de afastamentos só tendem a crescer.